Em
1985 o professor doutor Ubirajara Gomes Penteado era o mais renomado médico
patologista da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Não me Toque.
Diretor do Laboratório de Anatomia Humana, o gaúcho ministrava pelo menos dez
aulas por semana, extremamente ativo para seus 66 anos – dos quais, 40 foram dedicados a medicina cadavérica.
Doutor Bira, como era chamado à boca
miúda pelos alunos, era um homem distinto, de certo luxo desbotado e notável traquejo social. Não fosse pela idade, sexo e comum acepção do termo, o
chamaríamos de balzaquiano. Isso porque não dispensava uma gravata borboleta e,
como o francês, chegava a acreditar que isso influenciasse positivamente na
saúde do indivíduo portador do adereço.
Assim como a maioria dos excessivamente
organizados, não dormia sem antes contar os puxadores do armário do quarto.
Dormia, bem, não sei. Digo no passado porque não tenho mais notícia do velho
patologista. Deixe estar, ater-me-ei ao tópico frasal: o caso do defunto.
No dia 23 de agosto de 1985, uma fria
e típica sexta-feira do inverno gaúcho, por volta de 9 horas, Doutor Gomes
Penteado – como gostava de ser chamado, com direito a todas as maiúsculas – deu início a mais uma de suas célebres
aulas de anatomia.
Cerimonioso, o professor tratava os
cadáveres como relíquias sagradas, responsáveis por tantas vidas salvas e
descobertas gloriosas da medicina, cada incisão era tão ritualizada quanto a comunhão durante a missa católica.
Todos os corpos eram importantes, contudo, Salomão era mais. Se os outros tinham partes extraídas para provas orais e afins, Salomão permanecia inteiro, era o menos devassado pela ânsia científica dos acadêmicos, pois repousava sob a proteção divina do velho doutor Ubirajara.
Todos os corpos eram importantes, contudo, Salomão era mais. Se os outros tinham partes extraídas para provas orais e afins, Salomão permanecia inteiro, era o menos devassado pela ânsia científica dos acadêmicos, pois repousava sob a proteção divina do velho doutor Ubirajara.
Sabe-se lá porque ele era o
predileto. Tratava-se de um corpo não reclamado no IML da cidade, um homem alto
e forte, negro como a noite e, quando há pouco falecido, bastante cabeludo; chegou à Universidade através de nebulosos trâmites, uma lei de 1973, e a impertinência do doutor - insuspeitos, até então.
Naquele tempo – como diriam as sagradas
escrituras -, era bastante penoso conseguir um cadáver. A legislação brasileira
tardou a regulamentar, de fato, o destino dos corpos não procurados e até mesmo
a doação, em vida, da própria carcaça. Em 1992 a realidade mudou e os defuntos
esquecidos nos Institutos do país poderiam ser utilizados para fins científicos.
Já sobre a doação de si mesmo em vida para estudos póstumos, a solução só veio
em 2002. Enfim, o fato é que em 1985 ainda pouco se sabia sobre as práticas
ubirajarísticas para aquisição desses importantes instrumentos de pesquisa.
É desconhecido o motivo do nome, mas especulava-se que fosse pela cabeleira espessa
que o rapaz ostentou em vida. Há sete anos fazia parte do patrimônio da
Universidade, ao lado de outros quatro cadáveres – três homens e uma mulher -, era
o mais recente. Dentre outras coisas, tal informação nos permite concluir a
preciosidade que é possuir um cadáver para estudo. O próprio professor doara seu
corpo para o laboratório, na esperança de que, postumamente, o batizassem de Ubirajara Gomes Penteado. A doação ocorreu simbolicamente em uma cerimônia enfadonha e sem nenhum significado - legal ou acadêmico. Provou, apenas, o apego do médico ao seu ofício.
Ubirajara Gomes Penteado, alto e
magro, como o Chile, dava continuidade a sua fantástica aula sobre o Sistema
Estesiológico, de pouco em pouco, repuxando o cavanhaque esbranquiçado pela idade.
-
Vejam que a classificação das sensibilidades, segundo Sherrington, denomina as
sensações mais intrínsecas, concernentes ao sistema músculo-esquelético, como
proprioceptivas, e interoceptivas, as viscerais.
Eis que Calixto
Silva, garoto macilento e dedicado, interrompe atentando para um fato curioso:
- Professor, falta uma costela no
Salomão.
Como se assistissem ao último
episódio de Roque Santeiro, todas as conversas da sala cessaram e bocas ficaram
entreabertas. Não havia um aluno que não notasse a importância ímpar que
Salomão possuía. Tensos, aguardavam a reação do professor.
Doutor Ubirajara sempre se orgulhou
de sua organização. Não havia tripa sequer que saísse daquele laboratório sem
sua expressa autorização e conhecimento. Além disso, jamais toleraria, por menor que fosse, algum vilipêndio naquele espaço. Diante de tamanha afronta, o professor
restringiu-se a encerrar a aula mais cedo.