terça-feira, 20 de maio de 2014

Capítulo II - Adeus Madureira

Salomão, o rei, faz parte de uma gloriosa lenda. Dizem, e assim ouvi até de minha mãe, que duas mulheres em seu reino disputavam um bebê. Como não havia teste de DNA, obviamente, o soberano, imbuído de sua infindável sapiência, sentenciou:
            - Cortem o bebê ao meio e cada mulher leva para si uma parte.
            Uma delas desesperou-se:
            - Não! Deixe que ela leve o bebê, não quero que matem meu filho!
            Assim encontraram a verdadeira mãe e Salomão tornou-se para nós, contemporâneos tupiniquins, sinônimo de perspicácia. Ou não, afinal, é possível que alguém esteja lendo e nem sequer saiba dessa história. O que não é demérito, diga-se.
            Já o nosso Salomão, que veio a ser defunto do doutor Ubirajara, era um cabeleireiro. Nascido em Madureira, amigo íntimo de Devani Ferreira e membro de sua banda, tocavam no bar Birosca da Cida, onde rolava uma gafieira gostosa no primeiro sábado do mês.
            O enrosco começou quando Salomão e Tantinho – como Devani era conhecido, devido a sua diminuta estatura – propuseram a dona do boteco, Aparecida Gomes de Jesus, que pelo menos uma vez por mês a mesa de sinuca fosse encostada em um canto e desse espaço para o samba. Logo o pessoal foi tomando gosto pela coisa e Nélson Cavaquinho apadrinhou a dupla, até aparecia para dar uma palinha vez ou outra.
            Antes tarde do que nunca, é preciso esclarecer que Salomão jamais fora chamado assim. Em vida foi Osvaldo de Brito - há rumores, inclusive, de que a música Nego Dito fora feita em sua homenagem, mas nada comprovado ainda. Foi um cabeleireiro de mão cheia – com duplo sentido, diga-se. Corria à boca pequena que a imensa clientela feminina de seu salão não existia em virtude de seus dotes profissionais, mas sim de outros, mais peculiares, dos quais trataremos mais tarde.
            Depois de anos na informalidade decidiu abrir seu próprio negócio em Madureira, a Barbearia de Brito, que depois virou Salão de Brito, dado o assédio do público feminino. Cortou cabelos importantes e dizem até que Pimenta da Veiga passava por lá religiosamente uma vez por mês – quando ainda tinha cabelo, é claro.
            Osvaldo era solteiro, exceto por um ou outro encontro com Rosângela, filha de Edoardo, um velho italiano dono de um mercearia. Não que fosse troca de favores, mas a cada encontro com a bela ragazzina, surgia um queijo com pão na faixa. Com um puxa e afrouxa constante, Osvaldo seguia equilibrando as contas do mês, o samba na noite e o sonho de aprender a tocar cuíca.
            Seu instrumento oficial era o pandeiro, apesar de almejar sempre a tal da cuíca. Com maestria irrefutável, sua mão nodosa e grande pandeirava até o amanhecer, levando ao delírio toda a clientela da Birosca, que só parava de sambar quando a tira do chinelo arrebentava.
            No dia seguinte não havia expediente no salão. Por unanimidade geral da rua, ficou decidido que o salão, ponto de encontro de todos, abriria somente no período da tarde. Assim ambos os ofícios exercídos por Osvaldo poderiam seguir conciliáveis.
            Botafoguense roxo, em 1974 diante da segunda derrota seguida para o Flamengo, Osvaldo prometeu não cortar o cabelo até que o time conquistasse uma vitória. Eis que surge um jejum de 3 longos anos, nos quais, arduamente, os times sustentaram apenas empates.
            Cabeludo e chateado, Osvaldo decide abandonar a vida de boêmio carioca e muda de vida. Transfere-se para Viamão, no Rio Grande do Sul e ingressa no Seminário Maior de Viamão, onde converte-se gremista.

            É sabido que não foi só o Botafogo que ensejou tamanha mudança e há inúmeras versões sobre o caso. Conquanto, a verdade só veio à tona muito tempo depois.

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